SENHOR, A NOITE VEM DESCENDO...

Senhor, a noite vem descendo,
A noite vem caminhando,
Nas casas dos homens vão se acender as luzes
E será chegada a hora da ceia
E entre familiares o pão será dividido.
 
Senhor, por que não vens comigo e não contemplas
A casa dos homens?
Ninguém nos verá. Por uma vidraça
Descobriremos o mundo dos homens.
Veremos a família reunida. O pai, pensativo, a mãe servindo
E os filhos inquietos e impacientes sem saber, da hora próxima
 
Em que terão, eles também, presidir e servir
Nas ceias futuras,
Quando a casa se povoar de seres novos.
Convocados para continuar indefinidamente a vida amarga.
 
Senhor, vem contemplar comigo a casa dos homens.
Vem ver, com os teus próprios olhos, a segurança que reina
Na casa dos homens.
Reunido em torno a mesa familiar,
Parecem não sentir o abismo e o silêncio que os cerca.
Praticam no breve tempo, como se estivessem na eternidade.
 
Julgam a casa fundada na solidez
E não sabem Senhor, e não sentem que a casa do homem
É um navio que avança pelo mar, para um destino incerto, pobre em mar traiçoeiro.
 
Vamos, Senhor, olha os homens reunidos,
A família do homem reunida na refeição noturna .
A casa está cheia de sombras
Mas a luz de uma lâmpada esconde aos homens
 
A presença de escuras formas que os velam e cercam.
A lâmpada que preside à mesa esconde
O que só nas trevas se vê e distingue:
A presença dos desaparecidos, dos antigos,
Dos que pertenceram às gerações adormecidas,
Aos que se foram e tombaram, como frutos na terra
Ou velhos, ou colhidos pela tua própria mão, Senhor, ainda verdes.
 
Vem, Senhor, contemplar a família do homem.
Vem olhar a retardaria, a que se esconde a outra noite,
A anciã que tudo, o menor gesto, a mais breve palavra,
Faz reviver, gestos e palavras que rolaram na morte.
Vem contemplar o recém-vindo, que a voz materna
Acalenta, que a voz materna procura fazer reencontrar o sono, o seio do sono.
 
Vem ver, Senhor, o adolescente, o homem adolescente.
O seu olhar iluminado, os seus passos graves em torna à mesa
Quando, finda a refeição, a verdadeira noite vai começar.
Ouve a experiência do pai
Que lhe fala.
 
Vem ver a mãe, Senhor
E, assim, recordarás a Tua Mãe,
No seu tempo na terra.
 
Vem ver coma na serenidade materna,
Treme o inquieto espírito feminino,
Como uma rosa que o vento estremece.
 
Vem, Senhor, agora que a tua noite desceu
Dos cegos céus - o homem na sua casa,
O pai de família, o homem cuja forma e espécie,
Um dia tomaste, no Sacrifício Remoto.
Vem ver o homem à luz da sua lâmpada noturna.
 
O olhar do homem, o aspecto do homem na sua descuidada,
Na sua abandonada verdade.
Vem ver o homem no meio do caminho,
Entre os que se foram, entre os desaparecidos
E os que estão para chegando.
Vem, senhor, contemplar a tua criatura
Tão ameaçada nesta viagem.
 
Vem ver a imagem da tua criatura, Senhor.
Na sua breve noite sobre a terra.
Vem ver o homem, Senhor, na sua imagem mais pacífica.
 
Na sua imagem mais segura,
Quando a noite desce do alto
E, na casa do homem, se acendem as luzes
Vês esta mulher?
entrando em tua casa, não me deste água para
os pés; esta, porém, regou meus pés com
lágrimas e os enxugou com seus cabelos.
Não me beijaste; ela, entretanto, desde que
entrei não cessa de me beijar os pés.
Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta
com bálsamo ungiu meus pés.
Por isso te digo: perdoados lhe são os seus
muitos pecados, porque ela muito amou; mas
aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama.

LUCAS, 7;44-47

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